ALMANAQUE

 

Casos pitorescos

            Como todos aqueles que passaram pelas Faculdades de Educação Física, ou que se aproximaram do Atletismo sabem, o atleta, após realizar sua tentativa no arremesso do peso, não pode tocar, com qualquer parte do corpo, o anteparo de madeira do círculo ou sair dele pela parte da frente. Pois bem, era dia de prova final na disciplina de Atletismo. O professor, muito severo, dava notas aos alunos de acordo com a performance que atingiam em cada prova. Se corressem os cem metros rasos, o tempo conseguido nessa distância correspondia à nota dada pelo professor; o mesmo ocorria com os lançamentos e os saltos. Chegou a vez do Jerônimo, vamos chamá-lo assim. A prova era o arremesso do peso. Bom aluno, Jerônimo conhecia bem os movimentos dessa prova. Entrou corretamente no círculo, colocou o peso na palma da mão, sob o queixo e apoiado no ombro direito. Deslocou-se de costas e lançou a esfera. Saiu do círculo pela parte de trás todo satisfeito, quando ouviu o veredicto do professor: “zero!” “Por que professor, onde errei?” E o professor, solene: “Invasão aérea”. O pobre rapaz, após lançar o peso, no embalo do movimento, passou o pé sobre o anteparo, sem dúvida, mas não o tocou, portanto, de acordo com a regra. Para o professor, mesmo assim, ele invadiu a zona proibida, pelo alto, portanto, caracteristicamente uma invasão aérea.

 

            Esta, se não houvesse testemunhas, nem eu acreditaria. Era uma vez uma Faculdade de Educação Física, cujo nome não revelarei, que tinha um professor de Atletismo, cujo nome também não revelarei, que adotava, como critério de avaliação, considerar a performance dos alunos nas provas de corridas, saltos e arremessos. Chegou o dia da prova, uma bela tarde de primavera; a prova seria sobre corridas de velocidade, para desespero dos alunos, os 400 metros rasos. Ou seja, dependendo do tempo obtido por cada um no percurso de 400 metros, haveria uma nota correspondente. Chegada a hora, o professor chamava o aluno da vez, pegava o cronômetro e dizia: "Atenção, vai!". E o aluno tinha que correr os 400 metros no menor tempo possível. Aos trancos e barrancos, todos obtinham, pelo menos, a nota mínima, que, naquele tempo, se não me engano era cinco. Porém, havia uma aluna, para quem, provas de 400, 800, 1500 metros eram um verdadeiro purgatório. Ela achava que jamais conseguiria uma performance mínima para ser aprovada. Os colegas a estimulavam, prometiam ajuda, mas a coitada, só de pensar já enchia os olhos de lágrimas. E ela foi ficando, deixando passar um colega, outro, até que só restou ela. O professor a chamou e disse as duas palavras fatídicas: "Atenção, vai!". Ela foi, e até galhardamente. Nos primeiros cem metros foi maravilhosa, chegou inteira; na linha de duzentos metros, ela já mostrava visíveis sinais de cansaço. "Ela vai cair", diziam os colegas. "Coitada", diziam outros. Quando a garota chegou aos trezentos metros, a língua estava de fora, os passos trôpegos. Um rapaz, penalizado, aguardou-a nesse ponto e começou a correr ao lado dela. "Vamos, você vai conseguir", ele dizia. E pegava no braço dela, dizia palavras de estímulo, encorajava-a de todas as formas. O fato é que ela, motivada pelo colega, chegou. Chegou caindo, mas chegou. Foi uma festa. Os colegas comemorando, correndo para abraçá-la. Quando a euforia passou, calaram-se e olharam para o professor, um tanto vitoriosos. "Zero para os dois", disse o professor. Os alunos não acreditavam no que ouviam. E o professor explicou: "Zero para você", dirigindo-se à menina, "porque colou". Segundos depois completou: "E zero para você também", referindo-se ao aluno que estimulou a colega, "porque deu cola".